terça-feira, 27 de agosto de 2013

Fogos florestais: o «Carrossel»



«Quem quer defender tudo não defende coisa nenhuma»

(Frederico da Prússia)



É com o coração apertado e com uma profunda indignação a percorrer-me as veias que continuo a assistir ao revoltante espectáculo diário dos fogos florestais que devastam o nosso país.

É com as lágrimas nos olhos que assisto ao abnegado sacrifício dos nossos bombeiros e ao desespero das populações esbulhadas dos seus parcos haveres.

E é com um profundo estupor que assisto à incompetência de quem devia tomar decisões enérgicas e eficazes para prevenir (sim, PREVENIR) e combater este flagelo e não toma mais do que medidas tíbias malbaratando os meios de que dispõe. Refira-se que, para a prevenção o Estado despende apenas a quarta parte do que gasta no combate aos fogos. E não cuida devidamente das suas próprias florestas como foi recentemente revelado pelas nossas televisões. E toda a gente sabe que:

MAIS VALE PREVENIR DO QUE REMEDIAR!

Através das emissões das várias TVs temos visto com que repugnante parcimónia são utilizados os meios aéreos, espalhando-os pelo território a conta gotas em vez de os concentrarem em ataques maciços num ou dois fogos de cada vez de modo a dominarem os incêndios e a permitir uma acção mais profícua dos corpos de bombeiros em vez de sobrecarregarem estes com o grosso do esforço necessário, quantas vezes baldado.

Já no ano passado aqui teci, em duas crónicas, algumas sugestões sobre melhoramento no combate aos fogos florestais:
  1. FOGO...!
  2. Fogos florestais: É hora da Cavalaria...!
que já há dias voltamos a enviar ao Sr. Ministro da Administração Interna acompanhadas de alguns comentários adicionais (certamente o Sr. Ministro anda muito ocupado pois nem sequer teve tempo de pedir a uma qualquer secretária que agradecesse o incómodo).

Também me desgostou (para não dizer indignou) a parcimónia da distribuição de verbas (e esforços) no sentido da PREVENÇÃO. Na primeira daquelas crónicas avancei algumas sugestões. É preciso criar leis? Pois criem-nas, é para isso que são governantes, eleitos para zelarem pelos interesses do País.

E faço aqui minhas as palavras de Barack Obama que, aquando do furacão Irene que devastou a costa leste dos Estados Unidos, declarou a um grupo de funcionários da Cruz Vermelha que... 

«Era preciso que as agências federais agissem primeiro, de forma decisiva, encontrando meios e sugestões, e só depois se preocupassem com questões regulamentares, de burocracia e até de legalidade».

Porque será que nós não conseguimos eleger políticos assim? Infelizmente, por nosso mal, os nossos governantes preocupam-se demasiado em serem EFICIENTES quando deveriam sobretudo procurar serem EFICAZES.

Qual a diferença?
  • Um líder é eficiente quando cumpre as regras e os regulamentos
  • Um líder é eficaz quando alcança resultados
E a ÚNICA função de um líder é ser EFICAZ!

Já agora, compare-se o número de Advogados no Governo com o número de Engenheiros. Porque ao contrário daqueles, que vivem obcecados pelas leis e regulamentos, estes preocupam-se, em primeiro lugar por obter resultados e resolver problemas. É para isso que lhes pagam e para que se formaram. Os regulamentos são apenas um enquadramento e uma ferramenta a usar conforme as conveniências.

Mas retomando o que acima foi dito, permito-me perguntar se já ouviram falar do «CARROSSEL»?

O método, para incêndios já fora de controlo ou a caminho disso, está esquematizado no diagrama abaixo.





Imagine-se um incêndio de grandes proporções, o maior que esteja em curso. Estabeleça-se um vai-vem circular de quatro aviões Canadair ou helicópteros pesados Kamov (ou Puma se for avante o projecto da sua reconversão) entre o fogo e a albufeira ou lagoa mais próxima (felizmente há bastantes no nosso país). E quando esse fogo estivesse dominado pela intensidade do ataque, o «carrossel» rumaria a outros pontos onde fosse necessário.

Mas não se ataquem os grandes fogos com heli-bombardeiros de pequena dimensão. Esses, usem-nos para debelar os fogos logo no seu início dando tempo aos bombeiros para lá chegarem a tempo e horas.


P.S. Quanto aos incendiários... voltaremos a eles numa próxima crónica. Mas ficam as perguntas:


  1. Porque razão as tríades desapareceram de Macau quando este território foi entregue à China? Quando o Portugal, legalista e democrático, nunca foi capaz de as controlar ou extinguir?
  2. E para quando acções concretas de protecção às vítimas em vez de regulamentos de protecção aos criminosos?




sábado, 20 de julho de 2013

Acordo NÃO... Porquê?





De que têm medo os
históricos do PS?



(imagem insustentavelbelezadosseres.blogspot.com)

Ao ler nos últimos dias os jornais diários e ao ver os telejornais na TV, confrontei-me com a veemente oposição de históricos do PS (Mário Soares, Manuel Alegre, José Sócrates - só para citar os mais notórios) à hipótese do «Acordo de Salvação Nacional» proposto por Cavaco Silva.


Não que eu concorde com a solução do Presidente, mas confesso que acho estranha - para não dizer muito suspeita - a posição tomada por aqueles senhores.


Já por várias vezes, neste blogue, se tem posto o dedo na ferida e Mário Soares não se pode queixar da «notoriedade» que aqui lhe tem sido concedida:


Nem outros governantes que por lá têm passado, seja de que partido forem. Por isso, porque razão será que agora os digníssimos membros «históricos» do PS têm tanto receio em celebrar um acordo para a recuperação de Portugal? Mas que tipo de patriotas são eles?

Ou será (todas as suspeitas são legítimas perante esta atitude) que o lixo encoberto por tantos anos de (des)governação socialista corra o risco de vir à superfície como o azeite e se venha a assistir à recuperação forçada de tanta corrupção encoberta que possa colocar em ordem as contas do País?

Quem não deve, não teme, senhores socialistas. É hora de pôr a nu, em nome de Portugal, a vossa verdadeira face arrancando-vos a máscara de imerecida honestidade que tantos de vós exibis. 





quarta-feira, 17 de julho de 2013

«O Meu Programa de Governo»













de
José Gomes Ferreira


Mensagem hoje enviada ao autor:

Caro Doutor,

Acabei de ler o livro que fez o favor de me autografar e considero-o um E-X-C-E-L-E-N-T-E programa estratégico de governo para quem tenha a coragem e, sobretudo, a honestidade de pôr ordem neste desgraçado país. Agora caberá a alguém passar às tácticas para conseguir colocá-lo em prática e derrubar os imensos interesses instalados.

Naquilo que li, posso classificar os assuntos em três categorias:

  1. Aqueles a que não tenho acesso por estarem fora do meu âmbito de acção, em que aceito a sua palavra como boa pelo rigor com que sempre trata os assuntos a que dá atenção, e que trouxeram uma luz nova sobre as acções dos nossos políticos (e não só). A sua actividade profissional dá-lhe contactos e conhecimento de dados que o comum dos mortais não tem hipótese de vasculhar. Obrigado, muito obrigado pelo que fez por todos nós.
  2.  Aqueles (muitos) sobre os quais já me pronunciei no meu blogue e sobre os quais fico feliz por saber que há alguém de prestígio que me vem dar razão naquilo que ao longo de vários meses comentei.
      
  3. O senhor Doutor Mário Soares, sobre cujas acções várias vezes me pronunciei, e em que estou em veemente desacordo quanto à suavidade com que o trata. A título de exemplo, seria interessante investigar a concessão do exclusivo do fabrico de vagões de caminho de ferro para a CP à METALSINES,  as consequências que daí advieram para a CP em termos de preços que passou a pagar comparativamente aos que pagava à SEPSA em Leça do Bailio e o que aconteceu à linha da produção desta empresa (criada de propósito para satisfazer a CP) que teve de ser reconvertida com sérios prejuízos como fruto daquela concessão.


Espero que os dados que lhe facultei sobre a acção do IEFP na Formação Profissional e no Desemprego lhe venham a ser de utilidade pois o país precisa urgentemente que seja lançada uma luz bem forte sobre áreas tão nubladas quanto essa e sobre a forma como têm sido «espatifados» os muitos milhões que a União Europeia facultou generosamente a Portugal para se modernizar.

E por aqui me fico. Continue o seu excelente trabalho e bem-haja pelo seu esforço


Um abraço

domingo, 14 de julho de 2013

A Bandeira de Cavaco...











... e a Bandeira Nacional!



No dia em que o Presidente Cavaco Silva falou ao País a propósito da crise governativa, não pude acreditar no que os meus olhos viram como (mais um) desrespeito pelos símbolos da nossa soberania.

Já não bastava a palhaçada do 5 de Outubro na varanda da Câmara Municipal de Lisboa com a bandeira a ser içada invertida pelo senhor Cavaco Silva, como agora, numa comunicação ao País que se pretendia séria, se assiste a mais um desrespeito à nossa bandeira.

A Bandeira de Portugal, um dos símbolos da nossa soberania que deve merecer o maior respeito, está desfigurada, não sendo aquela que está consagrada na Lei:



Duvidam? Atente-se no pormenor dos castelos. Os castelos da bandeira colocada junto do Presidente são émulos dos «castelos» das «bandeiras nacionais» fabricadas na China aquando do Euro 2004 e que tanta celeuma causaram na ocasião.

Será que neste país não existe um pingo de vergonha, nem nas mais altas esferas governativas, no sentido do respeito que nos merecem os símbolos nacionais?

Senhor Professor Cavaco Silva, o senhor é o Presidente da República eleito pelos Portugueses. Será exigir-lhe demasiado que, do mesmo modo que tem todo o direito a exigir o nosso respeito nas funções que ocupa, tenha o mesmo cuidado a respeitar e fazer respeitar aquilo que, acima de qualquer Presidente efémero, representa em permanência o País em que nasceu?

 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Miguel Sousa Tavares...




... e a greve dos professores 




Porque sei reconhecer o mérito e a razão a quem a tem e a sabe exprimir, do mesmo modo que fiz uma crítica rigorosa ao seu último livro, também aqui deixo o meu aplauso incondicional pelas palavras desassombradas e rigorosas de MST sobre a palhaçada que constituiu esta última greve dos professores.

Para quantos não tiveram oportunidade de ter lido o artigo, aqui fica a transcrição com a devida vénia e o total crédito ao autor.

Bem-haja!



O Sindicalista do PCP Mário Nogueira, os Professores e os desgraçados dos Alunos


* Por Miguel Sousa Tavares

A minha entrada no ensino foi feita numa pequeníssima aldeia rural do norte. Éramos uns 80 alunos, da 1ª à 4ª classe, todos juntos na mesma e única sala de aula da escola - que não me lembro se tinha ou não casas-de-banho, mas sei que não tinha qualquer espécie de aquecimento contra o frio granítico, de Novembro a Março, que nos colava às carteiras duplas, petrificados como estalactites. Lembro-me de que o "recreio" era apenas um pequeno espaço plano, enlameado no Inverno, e onde jogávamos futebol com uma bola feita de meias velhas e balizas marcadas com pedras. A escola não tinha um vigilante, um porteiro, uma secretária administrativa. Ninguém mais do que a D. Constança, a professora que, sozinha, desempenhava todas essas tarefas e ainda ensinava os rios do Ultramar aos da 4ª classe, a história pátria aos da 3ª, as fracções aos da 2ª, e as primeiras letras aos da 1ª. Ela, sozinha, constituía todo o pessoal daquilo a que agora se chama o 1º ciclo. Se porventura, adoecesse, ou se na aldeia houvesse, que não havia, um médico disposto a passar-lhe uma baixa psicológica ou outra qualquer quando não lhe apetecesse ir trabalhar, as 80 crianças da aldeia em idade escolar ficariam sem escola. Mas ela não falhou um único dia em todo o ano lectivo e eu saí de lá a saber escrever e para sempre apaixonado pela leitura. Devo-lhe isso eternamente.

Nesse tempo, não havia Parque Escolar, não havia pequenos-almoços na escola (que boa falta faziam!), não havia aquecimento nas salas, não havia o recorde de Portugal e da Europa de baixas profissionais entre os professores, não havia telemóveis nem iPads com os alunos, não havia "Magalhães" ao serviço dos meninos, mas sim lousas e giz, os professores não faziam greves porque estavam "desmotivados" ou "deprimidos" e a noção de "horário zero" seria levada à conta de brincadeira. Era assim a vida.

Não vou (notem: não vou) sustentar que assim é que estava bem. Limito-me a dizer que tudo é relativo e que nada do que temos por adquirido, excepto a morte, o foi sempre ou o será para sempre. E sei que na Finlândia - o país considerado modelo no ensino básico e secundário pela OCDE - os professores trabalham mais horas do que aqui, não faltam às aulas e ganham proporcionalmente menos. Com resultados substancialmente melhores, do único ponto de vista que interessa aos pais e aos contribuintes: o desempenho escolar dos alunos.

Só uma classe que recusou, como ultraje, a possibilidade de ser avaliada para efeitos de progressão profissional - isto é, uma classe onde os medíocres reivindicaram o direito constitucional de ganharem o mesmo que os competentes - é que se pode permitir a irresponsabilidade e a leviandade de decretar uma greve aos exames nacionais. Nisso, são professores exemplares: transmitem aos alunos o seu próprio exemplo, o exemplo de quem acha que os exames, as avaliações, são um incómodo para a paz de um sistema assente na desresponsabilização, na nivelação de todos por baixo, na ausência de estímulo ao mérito e ao esforço individual.

Mas a greve dos professores vai muito para lá deles: reflecte o estado de espírito de uma parte do país que não entendeu ou não quer entender o que lhe aconteceu. Deixem-me, então recordar: Portugal faliu. O Portugal das baixas psicológicas, dos direitos adquiridos para sempre, das falcatruas fiscais, das reformas antecipadas, dos subsídios para tudo e mais alguma coisa, dos salários iguais para os que trabalham e os que preguiçam, faliu. Faliu: não é mais sustentável. Podemos discutir, discordar, opormo-nos às condições do resgate que nos foi imposto e à sua gestão por parte deste Governo: eu também o faço e veementemente. Mas não podemos, se formos sérios, esquecer o essencial: se fomos resgatados, é porque fomos à falência; e, se fomos à falência, é porque não produzimos riqueza que possa sustentar o modo de vida a que nos habituámos. Se alguém conhece uma alternativa mágica, em que se possa ter professores sem crianças, auto-estradas sem carros, reformas sem dinheiro para as pagar, acumulando dívida a 6, 7 ou 8% de juros para a geração seguinte pagar, que o diga. Caso contrário, tenham pudor: não se fazem greves porque se acaba com os horários zero, porque se estabelece um horário semanal (e ficcional) de 40 horas de trabalho ou porque o Estado não pode sustentar o mesmo número de professores, se os portugueses não fazem filhos.

Por mais que respeite o direito à greve, causa-me uma sensação desagradável ver dirigentes sindicais, dos professores e não só, regozijarem-se porque ninguém foi trabalhar. Ver um sindicalismo de bota-abaixo constante, onde qualquer greve, qualquer manifestação, é muito mais valorizada e procurada do que qualquer acordo e qualquer negociação - como se, por cada português com vontade de trabalhar, houvesse outro cujo trabalho consiste em dissuadi-lo desse vício. Assim como me causa impressão, no estado em que o país está, saber que quase 200.000 trabalhadores pediram a reforma antecipada em 2012, mesmo perdendo dinheiro, e apesar de se queixarem da crise e dos constantes cortes nas pensões. Porque a mensagem deles é clara: "Eu, para já, mesmo perdendo dinheiro, safo-me. Os otários que continuarem a trabalhar e que se vierem a reformar mais tarde, em piores condições, é que lixam!" É o retrato de um país que parece ter perdido qualquer noção de destino colectivo: há um milhão de portugueses sem trabalho e grande parte dos que o têm, aparentemente, só desejam deixar de trabalhar. Será assim que nos livraremos da troika?

As coisas chegaram a um ponto de anormalidade tal, que, quando o ministro da Educação, no exercício do seu mais elementar dever - que é o de defender os direitos dos alunos contra a greve dos professores - convoca todos eles para vigiar os exames, aqui d'El Rey na imprensa bem-pensante que se trata de sabotar o legítimo direito à greve. Ou seja: que haja professores (que os há, felizmente!) dispostos a permitir que os alunos tenham exames é uma violação ilegítima do direito dos outros a que eles não tenham exames. Di-lo o dr. Garcia Pereira, o trabalhadores e do dr. Jardim, infalível defensor da classe operária, e o mesmo que, no final do meu tempo de estudante, na Faculdade de Direito de Lisboa, invocando os ensinamentos do grande camarada Mao, decretava greve aos "exames burgueses" - que o fizeram advogado.

Não contesto que as greves, por natureza, causem incómodos a outrem - ou não fariam sentido. Mas há limites para tudo. Limites de brio profissional: um cirurgião não resolve entrar em grave quando recebe um doente já anestesiado pronto para a operação; um controlador aéreo não entra em greve quando tem um avião a fazer-se à pista; um bombeiro não entra em greve quando há um incêndio para apagar. Eu sei que isto que agora escrevo vai circular nos blogues dos professores, vai ser adulterado, deturpado, montado conforme dê mais jeito: já o fizeram no passado, inventando coisas que eu nunca disse, e só custa da primeira vez. Paciência, é isto que eu penso: esta greve dos professores aos exames, por muitas razões que possam ter, é inadmissível.

* Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na edição do Expresso de 15 de Junho de 2013

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Madrugada suja...

 de Miguel Sousa Tavares


Hesitei profundamente antes de me abalançar a escrever esta crónica. Até porque tive uma elevada consideração pelo autor (MST) e custa-me apontar o dedo a quem escreveu algumas das melhores páginas que li na vida. Mas entendi que deveria fazer os meus comentários para que outros leitores desprevenidos não comprem gato por lebre.

Se, numa escala de 0 a 20 eu colocaria «Equador» no topo,  «Rio das Flores» lá bem próximo e a «No teu Deserto» daria igualmente uma classificação elevada pela sensibilidade, humanidade e ternura com que foi escrito, não posso dar uma classificação mais do que «suficiente» a uma obra que só será um best-seller (se o chegar a ser) pelo prestígio granjeado por MST nas suas obras anteriores. Ou seja, se as pessoas forem ao engano.

Devo dizer, em abono da verdade, que o enredo é interessante como tal, denuncia situações verídicas e, infelizmente, frequentes no nosso país e que eu não enjeitaria o talento de escrever uma história semelhante. Mas isso sou eu, um zé-ninguém ao lado do autor. De MST seria de esperar muito mais.

Mas vamos por partes. Por interessante que o enredo seja, tal como foi trabalhado, ele está ao nível das telenovelas brasileiras. Que também têm o seu público fiel, não o nego, mas que não é do mesmo nível intelectual dos leitores do «Equador». E, para começar, MST deveria ter um pouco mais de cuidado na sua pesquisa para escrever este livro.

Senão vejamos:



Página 39 - «São Berliets - informou-me o Francisco que conhecera aqueles blindados em Moçambique, em 63». Haja Deus. Blindados? As Berliets? Senhor Dr. Miguel Sousa Tavares, as Berliets são camiões militares, não são blindados. Anda a fazer confusão com as Chaimites? Ai a sua cultura geral...

Página 75 - «Imagino o que lhe não terá custado falar para alguém encarregue...» Haja dó, senhor MST, já alguma vez ouviu dizer que um camião está carregue ou que alguém está sobrecarregue de trabalho? Encarregar e sobrecarregar são verbos compostos do verbo carregar e conjugam-se do mesmo modo. Para alguém que recusa utilizar o novo acordo ortográfico (e muito bem na minha opinião) deveria abster-se de utilizar um neo-neologismo criado nos últimos anos pelos betinhos da capital. A palavra «encarregue» existe, sim, mas é o presente do conjuntivo (que eu encarregue...) e não o particípio passado. Assim aprendi eu na escola, há muitos anos. O senhor não?

Página 313 - «Quero que faças um teste de sangue e um teste de esperma». Senhor doutor, sou casado com uma professora de Genética Humana da Universidade do Porto, mas não é preciso tanto para ver o enorme disparate que aqui está.  Não costuma ver as séries dos CSI na televisão? Face ao relatado na página 343 («-O teu sangue corresponde às amostras que encontrámos no carro, o esperma não») e para esclarecimento da situação dos intervenientes dentro do carro o percurso a seguir seria a determinação do perfil do DNA das manchas de sangue e esperma encontradas e comparação com o perfil do DNA do suspeito, neste caso, do Filipe Madruga. Para a determinação deste último perfil, o que se seria de fazer, porque é o que se faz na prática, seria um simples teste realizado a partir de um esfregaço bucal. Note-se que tratando-se de um assunto criminal tal processo teria que ser conduzido num Instituto de Medicina Legal.

Mas há mais.

Página 16 - «... o falso Alexandre assistiu... aos movimentos compulsivos com que o seu amigo João a obrigou a engoli-lo até ao fim... derramando sobre a cara e o incipiente peito adolescente...» e mais abaixo « ...viu depois como a mesma cena se repetiu com o boçal do Zé Maria...»

No entanto, mais adiante, a versão já não é a mesma. Na

Página 253 - «- E ela fez isso a todos de livre vontade? - Pareceu-me que sim, embora estivesse bêbada...» «- ...E fez o mesmo exactamente a todos? ... - Não: ao Zé Maria foi até ao fim»

Página 254 - « -  E tem a certeza de que foi só ele? - Tenho.»

Mas ainda há mais.

Página 143 e seguintes: Veja-se o estilo de linguagem e as palavras eruditas da avó no seu diálogo com Filipe. São de uma pessoa de baixa instrução de «Medronhais da Serra» ou de uma pessoa com a cultura de MST? Haja congruência

E, já agora, como é que uma pessoa sem conhecimentos jurídicos como um arquitecto paisagista, sem as capacidades de um hacker nos domínios da informática e sem conhecimentos financeiros, pôde seguir os percursos sinuosos das finanças do Dr. Luís Morais e da Terramar até às Ilhas Cayman, até Angola e deslindar todos os esquemas de corrupção subjacentes? Das duas uma: ou MST não sabe do que está a falar e está a enganar os leitores, ou sabe e, como advogado, deveria fazer a denúncia dos casos que conhece tal como fez o seu herói Filipe Madruga.

Não vou aqui tecer comentários à recuperação da vítima Eva Ribeiro nem ao parecer técnico de Filipe Madruga sobre o empreendimento da Blue Ocean. Não tenho conhecimentos sobre essas matérias e não posso aventurar-me em águas desconhecidas. Mas, se MST se aconselhou junto de profissionais dessas áreas, teria sido elegante redigir-lhes um agradecimento. Como faz José Rodrigues dos Santos.

E, para terminar, porque razão nem num epílogo se dá a João Diogo e ao Comendador o tratamento de crápulas que eles merecem? Afinal a Eva e o Filipe ficaram com a faca e o queijo na mão. E, já agora, embora no texto haja uma sugestão de um final feliz, em benefício das leitoras não ficava mal ir um pouco mais além.

E por aqui me fico. Oxalá Miguel Sousa Tavares consiga inverter a curva descendente do seu percurso literário e voltar a brindar-nos com obras primas como as do passado.

P.S. Diz-se que um escritor, quando começa, escreve para o seu próprio prazer, mais tarde, para agradar aos amigos e, por fim, apenas para ganhar dinheiro. Será este o caso?